O ato político
Tenho visto, através de pessoas
bem-intencionadas, em geral muito jovens, discutindo ativismo político na
internet. Estas pessoas trazem um discurso, bastante padrão dentro do universo
da internet, julgando as pautas através da visibilidade. É uma lógica política
trazida pelas redes sociais (facebook, youtube e por ai vai), na qual dar
acessos é algo bom, pois da dinheiro e visibilidade, e não dar acessos é ruim.
No
universo das redes sociais, esta logica se sustenta até certo ponto.
Entretanto, no universo político não. E essa confusão interpretativa eu tenho
visto como muito recorrente. O universo político a visibilidade segue a lógica
de nicho eleitoral. Eu publico para o meu público, que vai reforçar as minhas
ideias. Só que para eu ter um público, eu preciso utilizar de artifícios de
convencimento. Estes artifícios foram largamente utilizados pela direita, que
criou inimigos invisíveis (como o comunismo), e utilizou do medo das pessoas
perderem seu modo de vida para um vilão exótico e canalizaram o ódio das
pessoas.
Esta
estratégia da direita fez o que a política, por essência, precisa fazer.
Mobilizou pessoas em torno de uma causa. Esta causa é equivocada, por obvio, em
vários sentidos. Mas é uma causa que as pessoas lutam, dariam suas vidas para
lutarem. A Direita conseguiu mobilizar as paixões das pessoas, e é disto que se
trata a política. Política, por essência, envolve a mobilização das paixões
humanas em torno de causas.
A
esquerda hoje, não consegue mobilizar causas, pois ela não sabe o que quer. Sem
um projeto, aonde queremos chegar, não existe mobilização. Temos tantos
“vilões” na sociedade brasileira. Citando alguns poucos, podemos tomar como
males sociais: a desigualdade social extrema, miséria, racismo, sexismo, nunca
termos punido torturadores, etc. Temos toda sorte de problemas sociais que
poderiam ser articulados, de forma política, mobilizando as paixões das pessoas
para lutarem. Não com fake News como a Direita faz, mas com a verdade, com a
realidade dos dados sociais brasileiros.
A
esquerda poderia, e deveria sim, usar a arma da direita, a mobilização, a
canalização das paixões. Não da mesma forma, não no mesmo sentido. E essa
mobilização envolve sim, confrontos, definição de posições, e o estabelecimento
de pontos. Não se pode negociar a exaltação a torturadores. Não se pode
negociar com o terraplanismo e coisas absurdas. Não se pode negociar com o
inegociável. Mas para ser assim, para atuar politicamente assim, é essencial
saber aonde vamos, saber para onde a esquerda quer ir. E disto, eu tenho
certeza, em 2020 a esquerda não tem a menor ideia de qual sentido quer ter. De
qual lugar quer ir.
Fica
na lacração pela lacração. A esquerda hoje é excessivamente virtualizada. Seu
ativismo é todo virtual. O virtual é importante hoje, ele mobiliza. Mas a
consolidação das posições, a demonstração de forças está na rua. E a rua, hoje,
é ocupada pela Direita. Não hoje, faz muito tempo. Na época da eleição do
Bolsonaro, as ruas foram ocupadas contra ele, mas não por iniciativa da
esquerda, mas em resposta a inúmeras mobilizações bolsonaristas.
Hoje
a esquerda não passa de um arremedo do que já foi. Não passa de uma fagulha do
que os ativistas do passado, com sua luta, com sua tomada de posição já foram.
As prioridades, as pautas mais essenciais não existem. Sem união a esquerda irá
continuar fracassando miseravelmente. Sem mobilização de paixões a esquerda vai
continuar fracassando. E sem dar visibilidade a Direita para ser criticada,
para ser destituída de seu poder simbólico, vai fracassar. Não é a toa que a
maior parte dos apoiadores da direita, hoje, são idosos e jovens. Isto só
ocorre em um país em que a esquerda se acomodou, o revisionismo histórico de
tiozões é tratados como memes, quando deveriam ser destruídos publicamente.
Vivemos dando rizada das pessoas que agora estão no governo por sua tosquice,
mas agora pagamos o preço pois a sua tosquice que manda neste país.
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